Abrigo Fundo, by Ricardo Caldeira



Nem mais um cartão!

Sara acordou na ressaca da dor de cabeça que, na noite anterior, anunciara certeira aquele estado feminino que a define mulher por quatro a cinco dias.

Pedro acordou indiferente à moinha da mulher e segredou-lhe que hoje ia ele buscar a Marta à escola. Sara acenou que sim e lançou frustrada o olhar pela janela. Logo hoje que no escritório é dia de noitada a contas com um projecto por finalizar e o pai dedica-se à função para roubar a Sara uma boa desculpa para sair mais cedo. O raio do homem que nunca se mexe num dia de chuva para ir buscar a filha e obriga ambas a fugir dos pingos a caminho do autocarro, deu-lhe na ideia de alterar rotinas.

Na mesa da cozinha uma rosa e uma nota “Um dia feliz para uma noite ainda mais feliz. Beijos, Pedro”. Em cinco anos de casamento era o quinto cartão.

De papel na mão seguiu com uma chávena de café a aconchegar o estômago para o buliço do metro. À entrada surgiram pelas mãos atarefadas de uns jovens novas rosas, mais frescas que a do marido e tão coloridas de nada como a dele.

A decorar a porta do escritório uma mensagem poética. Os paspalhos dos autores, três homens entre trinta e três mulheres, perderam semana e meia de trabalho a planear a surpresa. E, satisfeitos com a ideia, lançaram-se de segredos por mais duas semanas entre e-mails e telefonemas codificados com um trejeito amaricado no olhar que foi levantando sérias suspeitas entre o mulherio. Resultado final: meio metro quadrado de um poema, misto de originalidade e lugares comuns, frase feitas in Internet e alusões muitas às deusas lá do escritório, sem as quais só não são nada porque ainda se debatem amedrontados nas saias maternas. Essas pobres velhas já não sabem que rumo dar aos joanetes para se livrarem destes empecilhos de filhos que lhes saíram em rifa e que mulher alguma parece querer reclamar.

O resto do dia foi feito dos olhares do Sr. Amílcar, chefe de Sara, hoje mais afeito que nunca a gracejos e a comentários pela felicidade do momento, pela alegria infinita destes seres femininos que nos rodeiam e por aí e tal, sempre sem tirar do olhar o peito arrojado da quarentona que lhe enche as medidas cada cinco em sete dias por semana. Felizmente são apenas dois os dias em que descansa o olhar activando a memória no dançar de Sara entre um e outro escadote a arrumar projectos.

Hoje é quinta-feira e já pouco resta desta semana para se deliciar com a eficácia da secretária, por isso, antes de a deixar seguir, cuida de lhe ofertar mais um piropo. Ela sorri, enchendo-o de ar, cada vez mais ar, que já se vêm os pés a sair do chão. É assim ante um Amílcar leve e feliz, que Sara se despede do escritório rumo a casa.

À saída do metro largou doze euros em troco de fruta, verduras e outras poucas coisas para entreter um jantar em casa. Na caixa, enquanto recebia o troco, fitou de longe a televisão, que passava nervosa, no rodapé, a notícia do dia: “Oito de Março, dia internacional da mulher”. E ali estava ela, a terminar o dia oito na lembrança do gesto de Pedro, nas rosas do metro, na mensagem dos infelizes do escritório, e nas parvoíces sem sentido do Amílcar.

Já não seguiu para casa. Largou os sacos no chão e voltou ao metro. Saiu três paragens depois do escritório e entrou num bar decidida a riscar Março da agenda.

Pedro tentou ligar-lhe várias vezes para o telemóvel, que não se deixou ouvir no barulho da multidão.

Movido pelo espírito do dia, reuniu-se da mais acérrima vontade de surpreender a mulher e atirou-se ao banho da filha para, junto com o pai, aguardarem a mãe sentados no sofá. Foi assim que Pedro foi explicando a Marta, as razões do jantar fora, para entreter os irrequietos três anos da filha constantemente a perguntar pela mãe. Já sem factos para o atraso, Pedro despiu a filha e deitou-a embalada nas palavras doces da “Rainha das pétalas sem cheiro”, a sua história preferida. Marta é claro que não teve direito de escolha e deixou-se adormecer nas palavras que o pai lhe decidira ler. Já com Marta no sono do cansaço, também Pedro se deixou adormecer entre as pétalas sem cheiro.

Sentada no bar está uma desconhecida, meia-noite no relógio de um dia de semana em que Sara falha pela primeira vez em cinco anos a novela da noite. Foge deliberadamente a uma surpresa surpreendente: um jantar feito por Pedro, um jantar fora, uma serenata, tudo embrulhado numa loucura pela qual deveria sorrir e agradecer nas esperança de em 2008 o oito de Março lhe reservar nova surpresa ainda mais surpreendente.

Quando acordou, às quatro da manhã para levar Marta à casa de banho, Pedro não sabia que Sara estava lá em baixo sentada na paragem de autocarro sobranceira ao prédio a ver a luz acesa inundar a casa de banho. A mesma, onde todas as noites, meio adormecida, é ela que inicia a filha nas rotinas da vida. Que a levarão da escola ao trabalho, ao amor e à sua própria casa.

Sara, que entretanto se levantou em direcção à porta do prédio, sacou da chave com a mão num só pensamento: que talvez Marta não tenha de fugir aos dias oito e viva Março todos os meses do seu calendário sem falsas rosas. Quando rodou a chave na porta deparou com Pedro abraçado à filha a caminho da cama. Os olhares que se cruzaram não foram por perguntas sobre o avançado da hora. Preparou um chá e aninhou-se no colo de Sara enquanto lhe avançava um plano para sábado: deixar Marta com os avós maternos e jantar num Sushi bar que abriu na Parede. Depois, quem sabe, um cinema. Sara sorriu e ofereceu-lhe uma das rosas que recebera ao longo do dia. Pedro aproveitou a deixa e beijou-a com ternura. Foi Marta que entretanto acordou que surpreendeu todos com as palavras treinadas pelo pai. “Parabéns mamã”, disse ensonada, “Feliz tia da mulher”. Isso Marta, feliz tia da mulher, confirmou a mãe. A risada despertou os três que se entregaram a uma guerra de almofadas sem precedentes.

Aquela manhã do dia nove foi animada. Uma festa espontânea de saudades pela alegria do reencontro.

Desde esse dia já lá vão quatro anos sem cartões. Apenas os olhares indiscretos do Amílcar se mantêm. Mas esse, também pouco importa, que não faz ele o dia a nenhuma mulher.


Ricardo Caldeira

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