Crónicas da Brilha


A luta do amor

A Inês tinha 6 anos e tinha cancro.

Para os pais, a angústia da luta diária até às últimas forças. Poupava-se o dinheiro das viagens que não fizeram, das idas ao cinema adiadas, dos jantares com amigos que, afinal, se cansavam de ouvir falar nesta sua demanda. Tudo faziam para proteger a menina e para entrever uma réstia de esperança nas palavras da médica que a assistia.

A Inês habituara-se às visitas regulares ao hospital, à quimioterapia. Chorava quando lhe doía mas invariavelmente era uma criança alegre. Usava chapéu de praia azul enterrado até às orelhas para que os outros meninos não fizessem perguntas e as outras meninas não desdenhassem por um dia ter tido caracóis de ouro dourado como a luz do sol.

Ela era uma princesa sentada no trono, que vinha pintado do cinzento das cadeiras de rodas mas seria certamente feito de prata um metal daquela cor, um trono alto de onde a vida parecia mais ou menos séria e importante.

Nas idas para o hospital cumprimentava o condutor da ambulância e a enfermeira, ajeitava-se no seu trono de prata e ia todo o caminho a dizer adeus às pessoas que passavam nos outros carros. Sorria. Sorria sempre. E as mãozinhas pequeninas acenavam.

Se os seus pais venceram o inexorável, se o amor triunfou imprevisivelmente sobre o “fatum”, não o posso dizer nem adivinhar.

Certo é que me cativou aquele sorriso cheio de alegria e de vida e aquelas mãozinhas acenando, talvez por nada terem a perder, talvez por serem capazes de abraçar o mundo inteiro.

Ana Brilha

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