KW – Kurt Weill de Adriana Queiroz e as 6 perguntas que fizemos à cantora

Adriana Queiroz promo espetáculo

Uma sala de teatro. As luzes apagam-se. As cortinas ainda fechadas e começam a ouvir-se os primeiros acordes daquele que se viria a revelar um concerto surpreendente.

Diante de nós uma orquestra única, um dos melhores pianistas do país e uma voz que se 'agiganta', sempre que a música a isso obriga, para logo depois fazer-se ouvir suave e delicada.

Foi assim que senti o espetáculo KW – Kurt Weill de Adriana Queiroz. Muitíssimo bem acompanhada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa e Francisco Sassetti ao piano, a (agora) cantora enche o palco, aliás, toda a sala.

É impossível ficar indiferente a Adriana Queiroz, até mesmo com a "barreira" da língua alemã, com que abre o espetáculo. Porém, a sua interpretação é de tal forma cativante que nos agarra e nos leva consigo numa viagem fabulosa pelo universo de Kurt Weill.

Ao ouvir Adriana Queiroz a cantar as primeiras músicas em alemão, só pensava para comigo: "Quero muito ouvi-la cantar em francês", ao mesmo tempo que a Rosarinho me chama e diz baixinho: "Faz lembrar um bocadinho a Edith Piaf, não faz?" 😉

E faz mesmo. Pela forma como 'agiganta' a voz sempre que a música assim o exige, como canta de forma meiga e delicada, e tudo isto aliado a uma teatralidade única e um toque de humor que incute ao espetáculo, de que o exemplo mais evidente são as trocas de figurino em pleno palco.

Por falar em figurinos, a assinatura é do estilista José António Tenente e, aqui para as miúdas, assentaram na perfeição em cada uma das épocas retratadas no espetáculo. Se eu adorei o estilo cabaret francês do vestido com que viajou pelo repertório na língua de Piaf, já a Rosarinho ficou encantada com o glamour da última peça que ilustra a época americana, um vestido azul no estilo princesa.

KW - Kurt Weill de Adriana Queiroz foi para nós uma (muito) agradável surpresa, com a artista a conquistar aqui duas fãs, tanto mais que ainda tivemos a oportunidade para uma breve entrevista, que aqui vos deixamos. Venham daí conhecer Adriana Queiroz!


Adriana Queiroz em palco a cantar Kurt Weill

Este espetáculo já foi apresentado ao público em 2014, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz. O espetáculo atual sofreu alguma evolução e porquê trazê-lo de novo a palco?
A ideia de o repor cresceu no final dos agradecimentos da primeira versão. Não só me apercebi que não queria que o espetáculo ficasse por ali, como me realizei que o KW tinha muito por onde crescer. No dia a seguir, liguei logo ao Filipe Raposo (com quem trabalhava há já 2 anos no espetáculo Tempo), pois, à medida que ia interpretando aquele universo, ia realizando que o Filipe o habitaria com mestria. O que veio a acontecer... e foram 3 anos a tentar pôr o projeto de pé outra vez, com um lançamento em CD do trabalho Tempo e a digressão do mesmo - que se espraiou por mais de um ano... e a vida com alguns acontecimentos incontornáveis.

O que a fascina e inspira em Kurt Weill?
Apaixonei-me pelo trabalho e o mundo musical de Weill quando comecei a conhecer o teatro 'brechtiano' (sim, porque em pequena, para mim, o Alabama Song era um tema dos The Doors e o Speak low um standard de jazz; o Mack the Knife era uma canção tão popular que achava que era mesmo de cariz popular... em pequena). O entrosamento do mundo 'weilliano' na palavra de Brecht é tal, que nos faz duvidar onde começou o trabalho de um e acabou o do outro. Depois veio o fascínio pelo percurso deste homem fugitivo e refugiado uma vida inteira, que soube sempre retirar o melhor de cada situação vivida e ainda nos retribuir aquilo que apreendeu com uma obra de uma riqueza imortal.

Sente que existe alguma "ligação" entre si e Kurt Weill? Afinal, perante os grandes desafios da vida ambos revelaram um espírito resiliente?
Não posso deixar de sorrir com esta pergunta, pois sempre que falo apaixonada dos recomeços do Weill e da sua perseverança alguém me faz essa analogia. A resiliência, o não desistir do sonho, o recomeçar todos os dias pronto a beber e a viver em prol de um amor maior, isso, reconheço nele e em mim. A minha maior homenagem ao Kurt Weill é exatamente o nunca ter desistido deste projeto ao longo destes 3 anos e foi, sem dúvida, o exemplo da sua obstinação que me fez continuar em frente.

Adriana Queiroz

Sabemos que aos 17 anos foi para França à conquista do sonho de ser bailarina. Que aprendizagens trouxe, "na bagagem", e que hoje se refletem no seu trabalho?
De França trouxe "na bagagem" mais ensinamentos técnicos e menos 16 quilos, para começar a minha vida artística como Bailarina; mas é da minha vida como Bailarina profissional que retiro toda a minha força de trabalho, a capacidade de resistir, o não conhecer a expressão "não consigo", a disciplina, a entrega para lá da dor, a noção de que o espectáculo é mais importante que tudo o resto... Acho que qualquer Bailarino profissional se vai rever nestas frases e perceberá muito bem de que "barro" somos feitos. Devo toda a minha vida artística e a minha personalidade resiliente ao facto de ter começado com a vertente mais exigente das artes performativas.

A Adriana refere numa entrevista que os artistas têm a obrigação "de ensinar as pessoas a chorar, a rir, a ligarem-se aos sentidos primários". Acha que as pessoas estão cada vez mais desligadas de si? A arte poderá ser o caminho para a conexão com a essência de cada um?
Urge humanizarmo-nos. Estamos desligados dos nossos "sentires" e à deriva entre mundos cada vez mais antagónicos. Desapareceram as cores; ou é branco ou preto, quando se juntam o tom não vai para lá do cinza. Continuo a ter a opinião de que, no Ensino e nas Artes, está o futuro e está sobretudo o "reensinar" dos sentidos. Precisamos voltar a rir e a chorar por prazer e por emoção. Temos de voltar a aprender a amar e a respeitarmo-nos e, sobretudo, a pensar por nós mesmos. E isso só se consegue com um ser humano com bases sólidas a nível educacional e artístico.

Adriana Queiroz em palco canta Kurt Weill

Ter os figurinos, neste caso concreto do José António Tenente, faz sentido nos espetáculos da Adriana? A música caminha lado a lado com uma vertente mais cénica?
Faz sempre sentido ter a meu lado pessoas com quem consiga partilhar sonhos, vida e emoções. Pessoas que como o Zé estão prontas a ir mais fundo numa pesquisa, onde o trabalho nunca acaba, o diálogo faz-se, às vezes, só com um sorriso ou um olhar. E depois o lado humano do José António Tenente... Ao saber que queria vestir 3 décadas diferentes, e mudar de ambiente e roupagem em cena, depois de tantos trabalhos em que nos cruzámos no Ballet Gulbenkian, foi-me quase evidente que o Zé era a pessoa indicada para este projeto. Fica-me agora a certeza de que o Zé é a pessoa que gostarei que me acompanhe em todos os projetos, pois, como eu, ele adora mergulhar no mundo dos outros e habitá-lo sem nunca desvirtuar o propósito primeiro.
Respondendo à segunda parte da pergunta: Sim, os meus espetáculos vão andar sempre lado a lado com um fio dramatúrgico e um lado estético depurado que me caracteriza, mas que tem sempre um impacto grande no resultado visual e final. Farei sempre viagens musicais através de autores, ideias ou mensagens. Sim, a minha música será sempre muito visual cenicamente e "palavrosa"... como já o tenho dito, não estou à procura de uma sonoridade nova e sim de transmitir as emoções e os mundos dessa música, através das suas poesias, textos ou mensagens.

Susana Figueira & Rosarinho

Agradecimentos: Uguru 

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