No ouvido e na Tela, by Ricardo Dinis

Beck – "Colors"
Desde o megassucesso de Loser, já no remoto ano de 1994, que Beck se me afigurou como um artista independente, de uma pop alternativa que gosta de se redescobrir a si próprio e reinventar canções.
Após os aclamados Modern Guilt, de 2008, e principalmente o seu sucessor Morning Phase, de 2014, vencedor de quatro Grammys, entre os quais o de melhor álbum do ano, que a expetativa sobre o próximo trabalho do artista californiano era alta. O lançamento do pr-single Dreams em 2015, que figurou nas melhores músicas do ano para a Rolling Stone e a Billboard, antevia um álbum pop divertido, cheio de boas energias.
Quando ouvimos o trabalho na sua totalidade é precisamente isso que ressalta ao nosso ouvido: um mix de pop ao mesmo tempo retro e contemporâneo, como o próprio Beck o descreveu. Ritmos dançáveis, voz num estilo de falsete folk, tão característicos do músico, capazes de entreter qualquer pista de dança. Os ingredientes repetem-se em "Colors", desta vez, com a presença de flautas, samples de coros e ritmo entretido. Em Up All Night, para alguns críticos a melhor música deste trabalho, Beck, consegue uma das suas fórmulas de sucesso, a fusão entre pop, post folk, funk e hip hop, que o tornam num artista tão original. A minha música preferida é, sem dúvida, Dear life, onde a entrada de piano, se conjuga na perfeição com a guitarra ritmada e um refrão simples, mas com significado, onde se exprime a vida atual em que muitas vezes nos limitamos a sobreviver, em vez de vivermos, onde estamos agarrados a pequenos estímulos mundanos que nos mantêm vivos. Wow, um tema marcadamente hip hop, com sintetizadores e samples de coros à mistura, fecha o quarteto de singles.
O restante álbum, apesar de bem construído, acaba por não trazer nada de novo ao panorama musical atual e à carreira do artista de LA, enquadrando-se naquilo que se faz na cena pop atual. Aqui, Beck segue tendências ao invés de reinventar um estilo, algo que nos dias de hoje é bem mais difícil do que nos anos 90, ou mesmo no início de 2000, quando surgiu o introspetivo Sea Change. Gravado com um produtor de sucesso neste universo: Greg Kurstin, que já produziu artistas como Adele, Kelly Clarkson ou Sia, este é provavelmente o trabalho mais divertido e de ambiente genuinamente mais pop de Beck, o que não o torna de todo num exercício menor, deste talentoso e versátil músico, que a par de Greg Kurstin tocam praticamente todos os instrumentos do álbum.
Nas palavras de Beck, transportar a energia dos concertos ao vivo para o estúdio foi um desafio alcançado, pois "Colors" é, sem dúvida, um álbum que podemos ouvir e que nos vai fazer garantidamente abanar o ombro, seja numa fila de supermercado, seja no hedonismo de uma tarde no sofá da sala.  

"O Quadrado" - Ruben Östlund
A quarta longa-metragem do sueco Ruben Östlund, vencedor da Palma de Ouro para melhor filme e melhor realizador no último Festival de Cannes, consagra-o como um dos cineastas europeus de eleição, com uma visão contemporânea e bastante crítica sobre a sociedade em que vivemos. Desde 2008, com De ofrivilliga, onde um conjunto de histórias não relacionadas, acabam por se encruzilhar, passando pelo tema do bullying, Play (2011) e pelo drama de uma avalanche que se abate sobre uma família nos Alpes, em Força Maior (2014), que Östlund nos vai mostrando através da sua lente cinema de autor, arrojado e criativo.
"O Quadrado" pode ser considerado uma aula de sociologia contemporânea, tantos são os pontos que retrata na sociedade atual. Do preconceito e estereótipo ao poder das redes sociais e dos media, passando pelas desigualdades sociais e pelo individualismo humano, muitas das características do mundo em que vivemos são retratadas nesta obra de Östlund.
O grande mérito do filme está precisamente nesta panóplia de acontecimentos que nos fazem refletir sobre a sociedade atual e nos põem a conversar sobre ele, no fim da sessão. Nele ficam a nu questões e problemáticas transversais a toda a humanidade, numa sociedade nórdica (o filme passa-se em Estocolmo), que, por vezes, principalmente nós, os países de sul, achamos quase perfeita, mas que realmente, na sua índole mais íntima, padece dos mesmos problemas e desigualdades do resto da Europa. Este retrato é feito de forma exímia desde o assalto inicial a Christian (Claes Bang), passando pela sua tentativa de recuperação da carteira, telemóvel e botões de punho, num bairro problemático de Estocolmo, com a ajuda do seu assistente, Michael (Christopher Læssø). Esta trama culmina com a recuperação dos pertences de Christian, mas desencadeia uma acusação injusta a um menino do prédio onde decorre a cena… (de notar a forma original como Östlund filma cenas em escadas de prédios, uma espécie de fetiche do realizador).
Voltemos um pouco atrás: Christian, o protagonista do filme é o curador de um museu em Estocolmo. Divorciado, com duas filhas, é um bon vivant, cheio de estilo, bem vestido e com poder pelo cargo que ocupa, ainda mais ligado à arte, espalha charme por onde passa. Está responsável pela apresentação e divulgação de uma obra de uma autora argentina, que dá o nome à película – "O Quadrado". Mas que quadrado é este? É a própria figura geométrica, mas com regras muito claras: "The Square is a sanctuary of trust and caring. Within it we all share equal rights and obligations."
Esta premissa de que naquele quadrado todos temos os mesmos direitos e obrigações, serve de pano de fundo a todo o filme e contrasta com a realidade, que nos mostra que essa igualdade humana, de espírito coletivo e amor ao próximo, não existe, pois vivemos numa sociedade cada vez mais individualista (cenas no metro e na rua em que Christian pede ajuda e acaba por ser um sem-abrigo a fazê-lo, são elucidativas da mensagem do realizador/argumentista).  
O filme é pautado por vários momentos de sátira, onde os elementos cómicos e até de algum desconforto no espectador ganham força, como são exemplos as cenas da conversa com um preservativo usado nas mãos entre Christian e Anne (a sensual, ingénua, mas misteriosa, Elisabeth Moss) ou a cena do espectador com síndrome de Tourette na apresentação da obra de um artista, que solta palavrões de forma incontrolável e involuntária. A tensão sobe na conferência de imprensa que Christian dá para se demitir, como curador do museu, após uma campanha publicitária e de marketing, que, apesar de se ter tornado viral, gera inúmeros protestos de todas índoles e esferas sociais, por colocar um vídeo de uma menina loira a explodir quando está dentro do tal quadrado. No último terço do filme acontece uma das cenas mais emblemáticas, que, aliás, serve de trailer, onde Terry Notary ("Planeta dos Macacos" e "Hobbit"), encarna um homem-macaco que destrói por completo um jantar de gala, onde está a mais fina nata da sociedade de Estocolmo… Deixo à reflexão do espectador as conclusões a retirar destes minutos desconcertantes.
A parte final revela-nos um Christian na tentativa de redenção consigo próprio, procurando desculpar-se da injustiça que provocou ao menino do bairro pobre, a quem acabou por prejudicar com a carta colocada naquele prédio. Umas das cenas finais, de elevada beleza estética e comovente, mostra Christian à chuva a vasculhar todos os sacos do lixo do prédio em busca do contacto do menino, para lhe pedir perdão pelo sucedido, será que ainda vai a tempo?
"O Quadrado" merece definitivamente uma ida ao cinema (no Porto aconselho o cinema Trindade, reaberto este ano). Nele, Östlund, com o seu olhar psicológico e social traz para a grande tela o estabelecimento de dilemas ou quebras de contratos sociais e de como o ser humano reage aos mesmos. Através de algumas situações ridículas e até absurdas, o filme traz ao de cima, de um modo natural, toda a tensão e sentido cómico necessários a cada momento.
Ricardo Dinis

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