Amarmos o sítio que escolhemos para viver

ruínas de um moinho


Vocês sentem-se felizes no local que escolheram para viver? Olham de verdade para o espaço que rodeia a vossa casa? Sabem os nomes dos pássaros e das plantas que são vossos vizinhos? 

Eu sou feliz no sítio que escolhi para viver, olho com olhos de ver o que está à minha volta e sim, sei os nomes de todas as aves e plantas que moram perto de mim, graças à Sara Saraiva (Bióloga) que aceitou o meu desafio e num final de tarde, fomos descobrir o local maravilhoso onde eu vivo. Eu já tinha feito alguns passeios interpretativos com ela na Duna da Cresmina e tinha a certeza de que este momento seria muito especial.

O post de hoje é sobre amarmos e valorizarmos o local onde todos os dias regressamos, o nosso porto de abrigo, a nossa casa; é sobre estarmos atentos às belezas que todos os dias nos piscam os olhos; é sobre vivermos mais conscientes de tudo o que nos rodeia e de como isso pode ter um efeito tão positivo em nós. 

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Sexta feira, 19h00, a Sara estaciona o carro perto da porta do meu prédio. Na mochila traz livros sobre aves, plantas, anfíbios e répteis. O vento sopra, como sopra quase todos os dias por estas bandas... É o que faz morar entre a serra e o mar. Achei que o meu corpo merecia um casaco mais quente mas já não voltei atrás. Estava ansiosa para começar o nosso passeio.


livro sobre aves em Portugal

E começámos por reconhecer o território nas traseiras dos meu prédio (local privilegiado onde treino com o meu PT). O final do dia é uma das melhores alturas para observar aves. A Sara de ouvido atento começou logo a identificar alguns cantos característicos. Ali perto, as hortas que vão surgindo pelas mãos de quem gosta de trabalhar a terra, encantaram a nossa querida bióloga.  Mais ao longe, as ruínas de um moinho captaram o seu olhar e a vontade de o visitar. 


Pelo caminho fomos surpreendidas pelo Acridotheres cristatellus, que é como quem diz um Mainá-de-Crista. Segundo a Sara esta é uma "espécie exótica naturalizada. À primeira vista faz lembrar um melro pela sua plumagem preta e pelo bico amarelado, contudo distingue-se facilmente desta espécie pelas patas amarelas, pelo olho também amarelo e pelo tufo de plumas que ostenta sobre a base do bico. Em voo, as enormes manchas brancas nas primárias tornam a identificação fácil à distância!" (diz ela que percebe da coisa!). Mas ainda há mais a dizer sobre esta ave "O Mainá-de-Crista possui uma distribuição muito localizada, que se resume a alguns locais na região da Grande Lisboa, que entretanto colonizou e onde se estabeleceram populações nidificantes. Nas zonas onde ocorre pode ser observado durante todo o ano." Já viram algum perto da vossa casa? Vamos lá estar atentos!

Só um breve parênteses (não tenho fotografias das aves... a não ser da Águia de Asa Redonda e do Cartaxo Comum... porque o meu equipamento não é o mais indicado para fotografar a passarada em voo).

Já nas ruínas do moinho, comentei com a Sara ter visto, numa madrugada, uma coruja branca. Ela disse que poderia ter sido uma Coruja das Torres, espécie que gosta de se abrigar em edifícios como um moinho abandonado. De repente voei até às aventuras do Harry Potter ;) Nas pedras, com anos de história, surge timidamente a Borago officinalis, que é como quem diz, a Borragem, planta comestível que a Cláudia Silva Mataloto já usou numa receita de torta de laranja.


Borragem
Borago officinalis

Ruínas de um moinho

Deixámos para trás o moinho e iniciámos a nossa caminhada observando Melros  (Turdus merula) e Pardais-Comuns ou Pardais dos Telhados (Passer domesticus) que voavam à nossa volta ou saltitavam no chão. A Sara foi revelando algumas das espécies de plantas que existem por estas bandas e que ocorrem em clareiras de matos xerofílicos, pousios, bermas de estradas,  pastagens abandonadas campos agrícolas incultos e margens de linhas de água degradadas. Ela quase que aposta, que os terrenos perto da minha casa já foram locais de muito cultivo.



A primeira espécie que encontrámos foi a Acácia ciclops, que pertence ao grupo das grandes invasoras em Portugal. A Acácia é uma exótica invasora e mais comum no litoral. Esta, uma vez que foi o único exemplar observado, pode ter sido plantada naquele local. Depois seguiu-se a Smilax aspera, nome comum - Salsaparrilha e a Quercus coccifera (nomes fáceis de decorar), ou seja o Carrasco. Por esta altura e depois de termos descoberto uma Garça-Boieira ou Carraceiro (Bubulcus ibis), Andorinhas dos Beirais e das Chaminés que nos fizeram voos rasantes, a Sara partilha comigo que vivo numa zona muito rica em termos de biodiversidade. O que se veio a confirmar à medida que fomos avistando outras aves e outras plantas.


Acácia
Acácia ciclops
Salsa Parrilha
Smilax aspera
Carrasco
Quercus coccifera
Já afastadas da estrada e por caminhos de terra batida fomos surpreendidas por um Cartaxo Comum (Saxicola rubicola) que estava a cantar num carrasco. A Sara explicou-me que  o seu peito laranja e a cabeça preta "funcionam como um semáforo, quando a ave se empoleira nos postes e cercas das zonas abertas. Esta ave é uma das mais fáceis de observar, devido à sua conspicuidade. O Cartaxo Comum é vulgarmente encontrado empoleirado em postes, cercas e fios, locais que elege para observar as presas (insetos) que captura." 
Cartaxo Comum
Saxicola rubicola
(Alerta! As  as fotos das aves têm pouca qualidade)

Mas o momento alto do passeio foi a observação de um  casal de águia-de-asa-redonda (Buteo buteo). E vocês sabem o quanto eu amo aves de rapina. A Sara explicou-me que estas aves são frequentemente observadas em poisos ao longo das estradas o que torna a sua identificação mais fácil. Por isso tivemos o privilégio de assistir a um voo lindíssimo. 


Águia-de-asa-redonda
Buteo buteo

(Alerta! As  as fotos das aves têm pouca qualidade)
No caminho de regresso ouvimos os Chamarizes (Serinus serinus) e os Pintanssilgos (Carduelis carduelis). Quem é que não consegue identificar um pintassilgo? Toda a gente menos eu! Até este dia em que aprendi tanta coisa com a Sara, a maior parte dos pássaros de porte pequeno, para mim eram pardais...!  A Sara explicou-me que o pintassilgo é uma "ave granívora  conhecida por quase toda a gente, pelo que se trata de uma espécie de relativamente fácil identificação. A sua máscara vermelha, a cabeça branca e preta e as manchas amarelas nas asas fazem do pintassilgo uma ave bastante colorida e com um padrão facilmente reconhecível, mesmo em voo. Durante a primavera, pode ser observado a cantar no alto de árvores, antenas, postes e telhados. No inverno agrega-se frequentemente em bandos de dimensões consideráveis, que podem juntar centenas de aves." 

E já a finalizar o passeio, a Sara, ainda descobriu o Ulmeiro (Ulmus minor).  Esta espécie cresce junto das margens de cursos de água, sebes e orlas de matagais. Portanto tudo aponta que aqui perto de casa existiu, em tempos, um curso de água. Ela disse-me que o Ulmeiro se dá bem em "solos húmidos, ricos em nutrientes, geralmente na vizinhança de povoados e a marginar prados naturais ou hortas. As folhas eram consumidas pelos animais domésticos, sobretudo por vacas e porcos, no pino do verão." Eu vivo mesmo no campo e tão perto da cidade! Sou uma miúda de sorte! A nossa querida bióloga ainda partilhou comigo  que as populações portuguesas de Ulmeiro foram devastadas pelo Ophiostoma (Ceratocystis),  um fungo endófito disseminado por coleópteros escolitídeos (besouros) na década de 1980, o que levou ao aparecimento da Grafiose do Ulmeiro - (doença) para a qual não existe cura. Ou seja o Ulmeiro está em vias de extinção... e tenho um aqui tão perto!


Ulmeiro
Ulmus minor
Despedi-me da Sara já com vontade de fazer outro passeio na sua companhia. Foi muito gratificante saber que moro num local tão rico, tão bonito e com tantas espécies que também elegeram este espaço para habitar.

Portanto, pessoas lindas, observem as aves que são vossas vizinhas, observem a flora à vossa volta. Mesmo no meio do betão, a natureza teima em co-habitar com o homem e só temos de lhe agradecer por isso.

Obrigada Sara por me mostrares o lugar onde eu vivo de uma outra perspetiva! Por me chamares a atenção para a importância de todos estes seres e por reforçares em mim a consciência de querer lutar por um planeta mais saudável.

Nota: alguma da informação que a Sara partilhou connosco foi transcrita do site avesdeportugal.pt

Rosarinho

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