Uma lufada de romantismo, by Filipe Correia

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Tínhamos encontro marcado, nas ruas do destino. Senti-te chegar quando senti uma brisa perfumada que me soprava ao coração e os espanta-espíritos, nas árvores reerguidas, balançavam no vácuo e tocavam músicas eruditas, como sininhos prodigiosos.

Tantas vezes imaginei o teu corpo, nesse som, em forma de violino, despido de notas musicais e cordas, encostado ao meu pescoço, preso aos meus sentidos.

Chegaste quando havia desistido de rezar, o relógio da igreja marcava com firmeza as vinte horas e o pôr do sol vinha vindo sem pressa alguma. Os teus passos eram como badaladas aos meus ouvidos e tu em oito passadas decididas e largas abeiraste-te do marco do correio, encarnado como o teu vestido, como a minha pele ao ver-te chegar, como a minha vontade... Por momentos paraste, como que chegando à linha do horizonte e imaginei-te a revirar o marco, à procura das cartas que te escrevi sem remetente e que nunca leste. Pisei com delicadeza o alcatrão e airosamente saltei para o passeio, com medo que a bruteza dos meus gestos te afastasse. Senti-me um fotógrafo profissional, embrenhado na selva, para captar a foto mais rara, no momento mais precioso, sem ser notado pela espécie mais majestosa. Mas a objetiva era apenas o meu olhar.

Olhei-te uma primeira vez nos olhos, nesse primeiro olhar couberam dezenas de prosas que te escrevi naquele eterno silêncio. Olhei-te uma segunda vez e mergulhei profundamente no mar que misteriosamente cabia nos teus olhos. Depois lembrei-me que não sei nadar e fiquei torcendo para que uma onda me trouxesse aos trambolhões até à costa... É assim mesmo que me sinto, cada vez que alguém me lê pela primeira vez...

Fugiste ao meu sorriso, como que reprovando a fotografia, mas não há fuga para a poesia que te lancei, essa teia em que me camuflo, nunca quebra e resiste a todas as ventanias e marés.

A partir de hoje, quanto mais soprares, quanto mais me evitares, mais eu me aproximarei, mais eu balançarei para ti. Quanto mais me leres, mais chegarás ao meu olhar e se não te apaixonares por ele ou por mim, irás apaixonar-te por ti mesma, pois serás a pessoa retratada em tudo o que venha a escrever. Olha-me só mais um segundo, inspira-me só mais uma vida.

Encontrar-nos-emos por aí, na próxima prosa. Amén!

Junho 2018

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