Uma lufada de romantismo, by Filipe Correia


Vasculho a minha mala, como quem escrutina as memórias mais longínquas. Coloco as mãos em todos os bolsos e acabo por encontrar as chaves de casa, no mesmo bolso, em que há um século atrás guardei o teu anel de noivado e o beijo mais doce.

Abro a porta de casa, de peito aberto, a chave desliza pela fechadura, como eu deslizo na vontade de te ver habitar em mim. Sem ti sinto-me a viver numa gruta vaporizada de nada e sempre que entro em minha casa inalo esse vapor que me importuna todos os sentidos.

Num primeiro passo, empurro a porta e do chão brotam flores de todas as cores, condizendo com o papel de parede que nunca coloquei no meu hall de entrada. Pouso a mala no cadeirão da sala, tiro o blazer, como se me despisse do passado e do futuro e tiro assim uma tonelada dos ombros. 

Sopra uma brisa fresca pela janela que não deixei aberta. Deixei todos os perfumes e ambientadores tapados, ainda assim vem-me aos sentidos um cheiro frutado tão intenso, quanto sublime. Vestígios do teu perfume? Ou simplesmente destapaste a mente ao ler-me? 

Em passos inusitados sinto-me a dançar na minha própria alcatifa pintada de tapete. Se este tapete fosse voador, eu sei que voaria até ti antes do anoitecer.

Espreito o espelho e sinto a tua silhueta sonora, como numa dança do ventre. Atiro-me para o sofá e parece que aterro em algodão, macio, como as tuas mãos me pareceriam ao toque da minha pele. 

Esta noite colocarei a mesa para dois. Saio para ir comprar o jantar, pois não quero que circule em casa cheiro de cozinhados, mas somente o teu perfume. 

Espero que esperes por mim, como eu vivo na espera esperada de um dia te encontrar. Quando voltar quero que estejas aí, nas minhas palavras, de onde nunca saíste, mas fisicamente também, vale? Eu não me demoro... Custe o que custar esta magia, já me custou décadas de vida, mas não me desvendes o truque. Deixa que o descubra ou que caia maduro no chão.

Se quando eu voltar não estiveres, hoje, só hoje, não faz mal. Eu comerei pelos dois e trocarei um copo de solidão que todos os dias bebo, por um copo de sonho e poesia, vulgo puro cristal revestido de ouro líquido. Apenas os teus lábios descongelariam esta bebida, apenas a tua mordida me serviria de relaxante muscular, apenas tu me matarias a sede, apenas o teu olhar me destrancaria todas as portas que não abro, na minha casa. Sem ti, passeio e moro em 2 metros quadrados.

Entra, enquanto a tensão não me afasta de mim e o degelo não se dá. Entra por favor...

Até já querida.

Eu não me demoro, escreverei só mais uma linha.

Até já!

Um beijo sem voltas na fechadura do tempo, um abraço sem ferrolho.


2 comentários

Anónimo disse...

Muito bonito!Parabéns!

Armazém de Ideias Ilimitada disse...

Obrigada! É bonito sim, o Filipe escreve sempre com o coração! É de ficar por aí! ;-)

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