Uma lufada de romantismo, by Filipe Correia


Falso alarme. A sirene que tocou não era minha. O corpo que se deitou sobre mim e que eu beijei e devorei como se fosse a última ceia, não era o teu. Era apenas um corpo, feito de carne, ossos, desejos e sangue como todos...


Corro para a porta e no caminho espreito pela janela, tentando perceber que silhueta de fumo perfumado era aquela que a minha mente ficou desenhando até acordar e que se transportava para a rua, sem pedir licença.


Sobre a minha pele, passeavam, brilhantes, não sei se restos mortais das estrelas cadentes que eu pintei no céu anoitecido, enquanto a fazia gemer. Ou pequenas quadras pujantes de poesia que o seu creme corporal deixou no meu rosto.


Ainda não eras tu... Não era teu o desejo flamejante que me possui, não eram tuas as palavras que me tiraras da boca, não era teu o silêncio, aquele contemporizar sábio, de quem tem a batuta na ponta das sílabas e o tempero na ponta dos sentimentos.

Tamanha erupção foi apenas uma noite quente de verão, esquecida será, como tantas outras noites sem vento ou inspiração... 

No dia em que fores tu eu saberei na perfeição, o teu toque nunca irá se equiparar, o repousar dos teus lábios nos meus, trarão canela e açúcar na medida certa. Mas não uma canela qualquer, canela da cor avelã dos teus olhos e açúcar de cana integral acabada de colher. No meu canavial, o corte dos poemas será feito a teu gosto, meu amor...

E eu, eu sei que derramarei sobre ti uma febre terçã. O teu ciclo de ausência está longo demais e eu já não sei se te procure nas prosas vadias ou no corpo de todas as mulheres. Se passe as noites em claro ou se me deite sozinho todas elas (como até aqui) e neste jogo de lençóis novos eu engavete todos os sonhos.

Inventa sobre as estrelas um brilho qualquer, deita-te a meu lado e faz soar todas as campainhas vermelhas que o meu palato pode distinguir.

Filipe Correia

22/08/2018

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