Uma lufada de romantismo, by Filipe Correia

Uma lufada de romantismo by filipe correia final de dia outono folhas caídas

Caem as primeiras gotas de chuva da terra invertida a que chamam céu e o vento do furacão anunciado revolve-me os sonhos. Enquanto todo o mundo se esconde e abriga em suas casas, eu saio para a rua e procuro-te na revolta do clima, no campo deserto, nas copas das árvores remexidas, na madrugada da minha inspiração. Antes que o dia nasça, nascem em mim meia dúzia de versos, apanho-os como apanho as folhas caducas de outono, imagino os teus olhos assim, como as folhas das árvores, doces, meigos, a poisar em mim, castanhos dourados pelo sol que o verão ainda não esqueceu.

Não me esqueças tu também, antes que a memória se afogue na enxurrada dos tempos que não vivemos, não me esqueças antes que me conheças meu amor, não te despeças de mim, antes que surja o teu primeiro "bom dia!" e eu, afagando o teu rosto, faça surgir uma inaudível nota musical arrepiada pelo teu pescoço abaixo. Não te soltes nas minhas lágrimas, liberta-te com estrondo de uma gargalhada qualquer que eu dê antevendo o teu humor. Não te escondas quando a lua se vai, eu sei que estarás sempre lindíssima nos primeiros raios de sol de cada manhã.

E diz-me, nas horas em que as palavras se calam, carregam uma tonelada de solidão e nelas mesmas se enjaulam, continuas aí?

Quando a chuva fria bate no meu corpo gelado assim, ainda sentes calor? Quando o vento me despenteia as ideias e me varre o sorriso, sorris por mim?

Marquemos um encontro, então, quando os alertas de mau tempo se silenciarem nos nossos dedos sedentos de toque, e aí troquemos um olhar por um café, uma poesia por um até já.

No pico da tempestade te espero. Pois eu ainda não dei a última cartada, os teus lábios ainda não tingiram os meus e os meus para-raios continuam na epiderme das minhas palavras...

Que continue chovendo a potes nos meus olhos.


20 outubro 2018

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