Uma lufada de romantismo, by Filipe Correia


As sombras conhecem-nos bem, tão bem quanto as ruas, sem iluminação, desta cidade negra, como o nosso coração.

As sombras conhecem os contornos da minha alma, sabem para onde corro nos dias de desespero, que mapas esfrangalho para me perder, as ruas reproduzem o som dos meus ais de revolta e pelo meio vomitam as minhas tempestades mentais.

Também eu se pudesse sairia deste mundo e no segundo seguinte estaria aí, onde gostas de estar, no campo, a contemplar os vales e o horizonte. Aí onde fazes fotossíntese, aí onde eu escavo a terra fértil e colho batatas, como quem colhe poesias geminadas e delas faço puré. Aí, onde rego as plantas e não as arranco (nenhum vaso mereceria tirar-te da terra), da mesma forma que te iria regar de amor, da mesma forma que nunca te tiraria a vida e a liberdade. Aí onde tudo é selvagem como tu. Aí, onde desenraízo cogumelos e sonhos, onde afago o musgo que cresce nos muros (altos como os que construíste ao teu redor, para que nunca te chegasse). Aí, onde entrelaço tudo o que é natural, feito as tranças do teu cabelo.

Enquanto isso, liberto-me da dor, foram anos a olhar para o abismo e hoje sei que o devo saltar de olhos fechados, sozinho, mas antes... Antes, arranco este coração do meu peito, a sangue frio! Reparo que parece uma formação rochosa, mas amanhã será apenas uma peça de museu! Estava tão entranhado que desmoronou-me todo o tronco. Com ele soltou-se o teu perfeito desamor e saltaram milhentos pedaços gigantes de pequenos amores perdidos. À custa disso, lá fora caiu uma chuva de meteoritos e litros de um líquido que dava para tingir de encarnado todo o rio Douro.

Tenho-o aqui na minha mão! Meu Deus como é efetivamente grande! Este que sempre foi usado e deitado ao lixo cobardemente, este que tu nunca irias merecer, aqui fora deixou de me dar ilusões!

Nunca pensei que poderia escrever sem ele! Nunca pensei que pudesse viver sem ele! Mas doravante será assim que viverei!
 
Ainda está quente! Ainda tem batimentos! Ainda transpira metáforas. E é assim ainda pujante que o espremo vigorosamente! Vingo-me assim de tudo o que ele me fez sofrer! De tudo o que tu me fizeste sofrer! E quanto mais o espremo, mais pedaços de carvão e cinza me caem das mãos até ao chão! Perco o negro, desconheço-me, as luzes acendem-se e assim as sombras deixam de me conhecer também, passam por mim nas ruas e tal como tu, nem bom dia me dizem... 
 
Pego num frasco e encho-o de formol, nele mergulho este coração que teima em não deixar de bater e nem me deixa sossegar. E será aí conservado, embalsamado que ficará tudo o que sou. Tapo o frasco e sinto-me sufocar. Eu não escolhi ser só coração, querida...
 
Quem te escreve agora meu amor é um reles bibliotecário, sustendo o fôlego (para não engolir formol), que por perder o teu amor, por te perder, por perder o seu próprio coração, rasga páginas marcadas de livros antigos. Semeia-las onde sabe que na vizinhança haverá flores e espera um beijo por engano de uma abelha, como tu por engano nunca me chegaste a beijar. E nunca me deste um favo de mel a provar.
 
Se me quiseres voltar a ver, tens um olhar meu, perdido, no próximo corredor à direita, prostrado no chão, como uma nódoa.
 
Se me quiseres voltar a ler, estarei içado ali! Terceira estante a contar da saída de emergência, no topo, livro levemente deslocado para o lado esquerdo. Como o meu coração estava, na cavidade torácica que destruíste.

Fevereiro 2019
Filipe Correia

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