Viagem literária a Elvas - Igreja dos Terceiros


"Por aqueles dias a cidade estava consternada com a seca que se vivia. Não chovia desde o São Mateus passado e mesmo nessa altura também não chovera muito (...) Juntaram-se as senhoras da sociedade e foram falar com o Cónego da Sé para que organizassem um procissão. Dizia-se que o Senhor dos Passos do altar-mor da igreja dos Terceiros era milagroso e que, noutras ocasiões semelhantes, quando o trouxeram à rua e o levaram por cima das muralhas a contemplar os campos secos, caiu uma chuvada que amenizou a falta de água…", in "Searas ao vento, parte II - Júlia"

Por que começo este post com um excerto de "Searas ao vento"? Porque, tal como a Rosarinho disse no primeiro destes 4 posts que estamos a dedicar a esta Viagem literária a Elvas, este foi um dos pontos altos da nossa 'viagem' à descoberta deste roteiro literário, que nos levou à belíssima cidade de Elvas, no nosso querido Alentejo, e à extraordinária Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, também conhecida como Igreja dos Terceiros.

Crentes, ou não, é indiscutível que as igrejas fazem parte do nosso património nacional e, regra geral, são lugares de grande beleza arquitetónica e elevado interesse cultural. E, apesar de esta miúda estar longe de professar qualquer religião, são lugares nos quais gosto de entrar quando estou a passear e à descoberta das lindíssimas terras deste nosso cantinho à beira-mar plantado.

E visitar a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Elvas foi #Armazing

Porque esta não foi uma visita qualquer. É certo que estávamos com o melhor 'embaixador' da história da cidade que podíamos ter, o nosso querido 'primo' Nuno Franco Pires, mas ficámos com a sensação de que o João Baltazar, um dos 'guardiões' deste templo sagrado, cujo início da construção remonta ao ano de 1701, tem um enorme prazer (aliás, gigante!) em abrir as portas da 'sua' igreja e revelar cada pedaço da sua história, para lá da nave principal e do seu altar-mor…



A nave e o altar-mor

Como não podia deixar de ser, o início da visita fez-se pela porta principal que dá acesso à nave e à capela-mor, de estilo barroco e com o seu altar principal todo forrado a ouro, onde lá bem no alto se pode admirar o "santo milagroso" Sr. dos Passos. E foi com algum pesar na voz, que ouvimos o João Baltazar dizer-nos que nos dias de hoje são já poucas as pessoas que ali entram para rezar, e até mesmo escassas as celebrações que ali se fazem. Porém, nem por isso este guardião do templo 'baixa a guarda' e deixa os 'tesouros' por detrás destas paredes entregues ao tempo.

Ainda à entrada, foi a vez do António Marmelo, o outro guardião, nos chamar a atenção para os painéis de azulejos, do século XVIII, que relatam episódios da vida de São Francisco de Assis. Um trabalho extraordinário da azulejaria portuguesa que (todos) devemos cuidar, digo eu. E, curiosamente, foi também azulejaria a proporcionar ao grupo um dos momentos mais engraçados e descontraídos desta visita. Olha bem para estas duas fotos (em baixo 👇)...

  

Qual passatempo de revista, o António Marmelo perguntou-nos se víamos diferenças entre as imagens representadas. Se reparares bem, no painel à direita, podes ver representadas árvores e vegetação com a sua folhagem e flores, já no painel da esquerda tens a mesma imagem, mas com os ramos despidos das suas folhas. Ora, estes dois painéis ladeiam a entrada para o confessionário que era composto por dois cubículos e, 'reza a lenda', que na hora de confessar os pecados ao sacerdote, para o confessionário do lado direito iam aqueles que queriam confessar verdades e do lado esquerdo os que pretendiam confessar... as suas mentiras. Como deves calcular, não pudemos deixar de achar esta estória, no mínimo, muito caricata.

Por detrás da porta…

Estás a ver aquele sentimento de curiosidade quando somos crianças e nos dizem "não podes entrar nessa porta" e de imediato aquilo que mais queremos é ver o que está para lá da porta?! Pois, na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco pudemos satisfazer essa curiosidade infantil, quando passámos para lá das portas da sacristia e continuámos a visita conduzidos pelo simpático António Marmelo, à descoberta de todo o espaço por detrás daquele local de culto! O museu!





E desde a própria da sacristia, que naquele dia assumia o papel de 'sala de apoio e despensa' para as pequenas 'restaurações' e manutenção que estes dois guardiões elvenses ali se esforçam por levar a cabo, à sala onde os sacerdotes reuniam (que julgo chamar-se consistório), passando pelo pátio onde se encontra a cisterna (este é um dos elementos que mais marca a história de Elvas, são várias as cisternas espalhadas por toda a cidade) e pelo quarto onde dormiam os arcebispos que dali dirigiram as dioceses da região, e onde hoje podemos ver as marcas da passagem de D. Manuel Mendes da Conceição Santos, 23.º arcebispo metropolitano de Évora, que pelo pouco que consegui perceber, ali esteve em exílio, em virtude da sua oposição ao anticlericalismo republicano.




O 'milagre' do Sr. dos Passos

Saímos das acomodações do arcebispo e passámos pelo corredor que dá para uma das entradas laterais da igreja. Destino: parte superior do templo. E, se foi com alegria que admirámos a beleza da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco vista do coro-alto, onde, para nosso desalento, 'descansa' o órgão de tubos, que os dois guardiões deste templo sagrado já não foram a tempo de salvar, foi com entusiasmo que vimos o António Marmelo conduzir-nos até à deteriorada porta de acesso ao altar-mor e, como o grupo não era muito numeroso, deixou-nos atravessar a estreita passagem para que pudéssemos admirar de perto a sua decoração em talha dourada e circundar a estátua do Sr. dos Passos, como em tempos idos. Porém, para o grupo, a 'diretiva' era clara: ninguém podia rezar ou tocar no manto do Sr. dos Passos, porque chuva era a última coisa que queríamos para aquele roteiro que ainda estava longe de terminar.





Mas, como a Rosarinho disse no post anterior, desconfiamos que alguém invocou uma prece ao senhor ou tocou no seu manto púrpura, porque… será que assistimos a um milagre?! É que, quando saímos deste templo sagrado e... "Seguimos por cima da muralha das portas de São Vicente de onde se avistavam os campos que envolviam a cidade. Estava tudo seco e sem vida (...) As primeiras gotas de chuva fizeram-se sentir e a alegria invadiu os rostos de todos…" Bem, 'alegria' não será a palavra mais acertada, preferíamos ter o sol a brilhar e, com o devido respeito, dificilmente acredito em milagres, mas creio que todos teremos ficado com aquela expressão de "não acredito em bruxas, mas que as há, há" e sorrisos no rosto.


E, tal como na procissão de "Searas ao vento", não "arredámos pé" da muralha e também pudemos sentir "o cheiro a terra molhada", que adoro!

Susana Figueira








Hmm... parece-me que estão encontrados os 'culpados' das preces ao Sr. dos Passos

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