Viagem literária a Elvas

Elvas

No ano passado, quando convidámos o "primo" Nuno Franco Pires, autor do livro "Searas ao Vento", para estar à conversa com a Catarina Vitorino (dinamizadora do Clube de Leitura - Livros à Sexta), no Open Day do Armazém, estávamos longe de pensar que, em abril, iríamos com o Clube de Leitura numa viagem a Elvas. Como sabemos que o "primo" (podemos tratá-lo assim porque eu e a Susana somos descendentes de alentejanos e, portanto, somos todos primos e primas) adora ser inquietado, resolvemos desafiá-lo para outra aventura. Baseado no seu livro "Searas ao Vento", o Nuno criou um roteiro literário por Elvas. A malta fez as malas e rumou à terra das ameixas rainha-cláudia, do Forte da Graça (outrora já visitado) e do aqueduto da Amoreira. Vem viajar connosco!



O ponto de partida

O "primo" marcou encontro às 10h30 na Praça da República. E a essa hora lá estávamos nós. Neste ponto alto da cidade, tal como no dia em que Olga ruborizou quando o Joaquim Manuel a abordou - A rir sozinha? - também o vento soprou mais forte. Bem perto do edifício da antiga Sé Catedral acenámos ao Nuno e imaginámos "as senhoras com bonitos chapéus, acompanhadas das suas criadas, com aventais imaculadamente brancos de mãos dadas com os pequenos, sorridentes" a circularem numa outra manhã de sábado distante. A primeira paragem seria no Miradouro do Castelo, mas antes de viajarmos para lá fizemos uma paragem no Mercado... quem resiste aos queijos, às azeitonas e aos enchidos alentejanos? Eu não! Tão bom trazer um pouco desta terra para casa.


Badajoz à vista

Depois das compras, descemos a encantadora Rua das Beatas em direção ao Miradouro do Castelo. Daquele ponto avista-se Badajoz e, em 1938, as pessoas juntavam-se ali consternadas e preocupadas com os bombardeamentos provocados pela guerra civil espanhola. As bombas rebentavam ali perto e o seu som alastrava-se por toda a cidade. "Com Badajoz à vista, Elvas sofria o impacto da guerra civil que dizimara a cidade espanhola destruindo muralhas, matando pessoas e somando refugiados que, às escondidas, atravessavam as searas sem fronteira procurando salvar a vida." Naquele momento, apenas pudemos imaginar o horror de uma outra época, mas lembrar que hoje existem outros refugiados que atravessam mares 'com fronteiras' para salvarem as suas vidas.

Rua das Beatas, Elvas

Rua das Beatas, Elvas

Miradouro do Castelo, Elvas

Miradouro do Castelo, Elvas


As ameixas

A segunda paragem foi muito doce. E a 'culpada' foi a avó Camponesa. Se ela não tivesse arranjado emprego à Júlia na fábrica de ameixa do senhor Carvalho, provavelmente não teríamos visitado a fábrica de ameixa Sereno & Fonseca. Nos anos 30, em Elvas, as mulheres trabalhavam em casa ou na fábrica de ameixas. Era um trabalho árduo muito por causa do calor e das abelhas atraídas pela doçura das ameixas rainha-cláudia. Já naquela época as indústrias de conserva de ameixa estavam a desaparecer. Hoje, a celebrar 100 anos, a fábrica Sereno & Fonseca parece ser a última sobrevivente com fabrico artesanal. Sediada num edifício antigo e atualmente em obras é um exemplo de persistência e amor pela tradição. Antigamente, a ameixa, "depois de confecionada era embalada em caixas de cartão forradas com naperons de papel". Hoje em dia, as embalagens são outras, mas a qualidade mantém-se. A mesma que levou Agatha Christie a referi-la no seu livro "The Adventure of the Christmas Pudding" - "We can't have six pences nowadays because they're not pure silver any more. But all the old deserts, the Elvas plums and Carlsbad plums and almonds and raisins, and crystallised fruit and ginger. Dear me, I sound like a catalogue from Fortnum & Mason." O livro está religiosamente guardado num caixa da Fortnum & Mason (claro!) que o Sr. José Carlos nos mostrou com muito carinho e orgulho. Queremos voltar lá depois das obras. Queremos celebrar os 100 anos desta fábrica que nos adoçou o coração. 


Fábrica de Ameixa Sereno & Fonseca, Elvas

Livro de Agatha Christie

Livro de Agatha Christie

Fábrica de Ameixa Sereno & Fonseca


O quartel 

Descemos a rua e parámos em frente a um edifício que, numa outra vida, fora quartel. Hoje, em pleno século XXI, exibe a influência da arte de rua. E é aqui que falamos de Francisco Maria, o "menino especial" que fazia "mandados" para a sua casa e para as mulheres de má vida. Francisco Maria "... não tinha maldade e via o mundo com inocência e ingenuidade: as causas desconheciam-se. As pessoas, por maldade ou ignorância, diziam que era 'atrasadinho', mas no seio da família era tratado por todos com muito carinho." E foi neste quartel contíguo à Capela de São João da Corujeira que aconteceu um episódio muito comentado na altura por toda a vizinhança. Parados defronte para ele imaginámos toda a cena. Num dia igual a tantos outros, Francisco Maria fez um recado para uma das prostitutas e como pagamento ela "quis ocupar-se da sua virgindade" muito famosa na terra. Mas ao primeiro toque, o rapaz fugiu bradando aos céus e nunca mais fez "mandados" para as mulheres que se ocupavam de satisfazer as necessidades dos militares.

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O santo milagroso

Depois do "pecado" seguimos que nem cordeiros para a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco. Estava na hora de conhecermos o Sr. dos Passos, que teve um certo protagonismo no livro e também no nosso passeio e já vais perceber porquê. Tal como naquele tempo (anos 30), hoje, a cidade de Elvas e todo o país estão a passar por uma seca. E, tal como hoje, o "assunto marcava a atualidade em casa, na mercearia, nas tabernas... nas preocupações dos políticos". A solução? Organizar uma procissão. Quando entrámos na Igreja (que terá direito a um post muito especial) o céu estava negro e a chuva ameaçava cair e refrescar os campos secos. Confesso-te o grupo não queria que chovesse... mas a verdade é que entrámos na igreja tal qual procissão e à nossa espera, para além do Sr. dos Passos estava o António Marmelo e o João Baltazar, guardiões deste espaço de culto que nos encantou. Esta igreja que esteve fechada durante muito tempo, encontra-se agora numa fase de recuperação e de regresso ao esplendor de outros tempos, muito graças a um grupo de pessoas que valorizam o património e a história e não permitem que fiquem a ganhar teias de aranha e caídos no esquecimento da poeira e da degradação. Quando em Elvas se resolveu avançar para uma procissão para que o santo milagroso trouxesse chuva... "As senhoras da sociedade disponibilizaram as suas criadas e a limpeza foi feita a fundo: caiaram-se as paredes, lavaram-se os azulejos que forravam parte delas, limpou-se o altar-mor (todo ele em talha dourada) e trouxeram-se flores." Hoje, é o João Baltazar que cuida e acarinha o espaço, para receber quem quiser descobrir este património da terra. Visitámos a igreja e o museu. Estivemos junto do Sr. dos Passo e do seu manto púrpura... e não sei se alguém rezou para que chovesse (desconfio que sim), porque quando saímos, o Nuno fez uma paragem junto à muralha e quando olhámos os campos secos "as primeiras gotas de chuva fizeram-se sentir". Não nos enchemos de alegria como participantes da procissão descrita no livro. Naquele dia, o pessoal queria sol para a passeata!


Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Elvas

Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Elvas

Sr. dos Passos, Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Elvas

Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Elvas

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A casa da família

A chuva obrigou-nos a apressar o passo e a casa onde outrora vivera grande parte da família de "Searas ao Vento", chegaram a ser 17 pessoas a partilhar um espaço mínimo, foi vista de relance e fotografada apressadamente. Ali, viveram-se momentos tristes, felizes, de tensão, de angústia, nasceram crianças, velaram-se entes queridos. Naquela casa, os solteiros dormiam no chão e os Natais eram uma grande festa de amor e família... Nós apenas vimos as paredes consumidas pelo passar dos anos e pouco mais. Nem tempo houve para o Nuno falar um pouco mais da história e estórias da família que nos levou a Elvas. Temos de agradecer ao Sr. dos Passos. 

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O começo de um namoro

Continuámos a fugir à chuva. E foi entre as gotas impiedosas que conhecemos o local onde a paróquia de São Pedro organizou um baile de angariação de fundos para ajudar os mais pobres. Não estava iluminado, nem tinha bandeirolas de cores como em 1939, não havia borregos para serem sorteados e não pagámos 2$50 para ter acesso ao recinto da festa. Na altura, o recém-inaugurado Jardim dos Combatentes (construído junto às Portas de São Vicente) foi palco do início do namoro de Lourdes e Ludgero. O casal mais inspirador desta história que provou que "o amor move montanhas". Foi naquele dia de festa que o seu namoro se "oficializou", pelo menos, entre os dois - "Afastados do bulício das pessoas e da confusão do baile, atreveu-se a beijá-la - desejava fazê-lo desde a primeira vez que a tinha visto...". Este momento romântico abriu-nos o apetite e o Ruy Andrade, do Acontece, já nos esperava para um almoço inesquecível (vamos falar disto num outro post).

Elvas




Depois do almoço e como já era tarde para visitarmos o Forte de Graça, fomos descobrir o Museu de Arte Contemporânea. Não fazia parte do roteiro do livro, mas valeu muito a pena e futuramente vou-te contar tudo sobre a coleção e o espaço.

As miúdas querem agradecer muito ao 'primo' Nuno Franco Pires por nos receber na sua terra. Ele é um verdadeiro embaixador de Elvas. Orgulha-se de ser alentejano, orgulha-se da sua cidade, que tem o maior conjunto de fortificações abaluartadas do mundo e que, desde 2012, é Património Mundial da Humanidade, título atribuído pela UNESCO. Foi um dia com muitas emoções que terminou onde começou, na Praça da República com a Susana a ler uma das suas passagens favoritas, a da festa dos 80 anos da avó Camponesa:


"Não havia na família o hábito dessas comemorações, a falta de dinheiro não as favorecia, contudo, a provecta idade da matriarca tinha motivado a filha mais velha. (...) Fez-se tudo às escondidas (caso contrário não haveria comemoração porque a homenageada não o consentiria): vão gastar dinheiro comigo? Não senhora, não quero cá isso; diria. (...) a avó Camponesa chegou e começaram a cantar-lhe os parabéns a você. Ainda resmungou por uns instantes, alegando que não gostava de festas, que já não fazia anos, que não deviam ter gasto dinheiro com ela mas o sorriso delatava-a: estava muito satisfeita."

Praça da República, Elvas

Livro Searas ao Vento de Nuno Franco Pires

Rosarinho

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