Da Adega da Cartuxa à Enoteca

Enoteca da Cartuxa

A visita a Portugal de grandes amigos vindos do Brasil merecia um roteiro à altura. Eu sabia que eles queriam viver experiências gastronómicas e não iriam ter isso na minha cozinha. O que fazer num fim de semana? Tinha de ser algo intenso e inesquecível. Exigia-se que fosse relativamente perto de casa para não perdermos muito tempo em viagem. Évora foi a cidade selecionada. E no roteiro de igrejas, palácio, feira de antiguidades e lojas estava uma visita guiada com prova de vinhos à Adega da Cartuxa. O sábado começou na Quinta de Valbom e acabou na Enoteca. O match perfeito. A melhor experiência que lhes podia ter proporcionado. Fiquei muito feliz.


Adega da Cartuxa

O fruto proibido chama-se Pêra-Manca

Já visitei algumas adegas, não sou especialista em vinhos (o meu nível de especialidade é "aprecio ou não aprecio"), mas a passagem pela Cartuxa foi muito especial... Quase tão especial quanto a estrela da companhia - o tinto Pêra-Manca (que não provei). Mas acredita que o fruto "quase proibido" (para alguns) é muito apetecido. Eu tenho de te falar deste vinho antes de te contar como foi a visita. Pêra-Manca tinto foi eleito, em 2015, um dos "30 melhores e mais desejados vinhos do mundo"! Diz-se que Pedro Álvares Cabral o levou consigo para o Brasil em 1500. Se era para brindar a chegada a terras de Vera Cruz tinha de ser com um dos melhores vinhos do país! Os monges foram os primeiros produtores do Pêra-Manca. Agora, esta preciosidade está na posse da Fundação Eugénio de Almeida. E porque é que ele é "quase proibido" (pelo menos para mim)? O vinho não é produzido todos os anos, já que a capacidade produtiva das vinhas tintas é mais baixa; podes guardá-lo durante 20 a 30 anos (nas condições ideais); a garrafa da safra de 2014 (com 4 anos de estágio) custa 213€, mais coisa menos coisa; e a 'pêra' no topo do bolo? Na loja da Adega só vendem uma garrafa por pessoa. Concordas comigo quando falo em fruto proibido, certo? O meu desejo para tomar um Pêra-Manca vai levar-me à loucura de fazer uma poupança para adquirir uma garrafa do vinho mais famoso do Alentejo e, ao que parece, o mais caro do país.


Pêra-Manca

A visita e o corredor dos aromas
Com o Convento da Cartuxa a 200 metros de nós fizemos um passeio ao passado, ao presente e ainda nos desvendaram um pouco do futuro. A visita guiada por um conhecedor da história da Adega, do trabalho da Fundação Eugénio de Almeida e de vinhos, foi fundamental para deixar marca e não me admiro nada quando oiço dizer que quem passa pela Cartuxa torna-se um "leal consumidor". Uma das coisas que mais me cativou foi saber que a missão da Fundação (detentora da marca Cartuxa) é o desenvolvimento sustentável da região de Évora. Investem na inovação, na tecnologia, no desenvolvimento social e educativo e, claro, na produção de produtos de excelência. São seis as marcas dos seus vinhos e seis os patamares de qualidade. A saber (do mais baixo para o mais elevado): Vinea Cartuxa, EA, Foral de Évora, Cartuxa, Scala Coeli e o mítico Pêra-Manca. Mas o que marcou a diferença desta visita foi o tal do corredor dos aromas. Sabes aquelas tiras de cartão que te entregam numa perfumaria com o cheirinho do novo perfume ou do perfume em promoção? Neste corredor não tens fragrâncias dos perfumes franceses, mas tens a recriação artificial de 5 castas da fundação (Roupeiro, Antão Vaz, Trincadeiro, Aragonês e Castelão). Molhas a tira de cartão num pequeno recipiente e deixas-te viajar pelas sensações que te provocam. Uma grande experiência sensorial, uma explosão de cheiros que te prepara para as sensações que se seguem, no fim do corredor. Depois do olfato, apura-se o paladar.

Adega da Cartuxa

Adega da Cartuxa, corredor de aromas


Adega da Cartuxa


A prova final
Uma grande mesa com vinhos, azeite, pão alentejano (até me babo só de relembrar) e presunto de porco preto aguardava pelo grupo de visitantes maioritariamente brasileiros (eu e o J. éramos os únicos portugueses). Chegava, assim o momento da prova. Começámos pelo azeite. Gostei muito da experiência. Molhar aquele pãozinho alentejano no elixir extraído das azeitonas foi maravilhoso. Provei o Azeite EA (e agora vou dar uma de entendida), equilibrado em termos de sabor e pode ser usado tanto quente quanto frio. Já o Azeite Cartuxa, de qualidade superior, é intenso e ao mesmo tempo delicado, aconselha-se a usar só a frio (tirei apontamentos, ok?). Quanto ao vinho, também vou dar uma de entendida... provei um Cartuxa Reserva (tinto), colheita de 2014, com 15% de álcool (valeu-me o presunto). É um vinho muito complexo, perfeito para acompanhar com comida mais pesada ou com um belo de um queijo da serra. Já o J. provou um Scala Coeli (muito chique), 100% Touriga Nacional. Todo este momento teve uma solenidade muito própria. Os vinhos apresentados tiveram o seu momento 'passadeira vermelha'. O nosso guia conseguiu dar a todos um estatuto de estrelas de cinema. 


Azeites da Cartuxa

Prova de vinhos, Adega da Cartuxa

Quinta de Valbom - Cartuxa

O jantar dos sentidos 
Para finalizar este primeiro dia de passeio, celebrando Évora e os seus encantos, eis que a Enoteca da Cartuxa foi o local selecionado para um jantar dos deuses (com o Templo de Diana, bem ali ao lado). Os pratos e os vinhos não foram escolhidos ao acaso. As conjugações de sabores foram pensadas meticulosamente pelo colaborador da Enoteca, entendido na matéria e apaixonado pela marca que representa. Um madeirense no Alentejo rendido ao charme da gastronomia desta zona tranquila e bela do nosso país. O que escolher primeiro? O prato ou o vinho? Independentemente da ordem, a escolha do prato vai-te ditar o vinho e vice-versa. Tudo está pensado para que possas viver toda uma explosão de sabores. As iguarias propostas tiveram na sua génese preocupações específicas para ganharem uma outra dimensão, acompanhadas do vinho certo. Posso-te dizer que até hoje poucos foram os locais por onde passei e vivi uma experiência assim. A potencialidade dos pratos e dos vinhos é explorada ao limite da perfeição. Para além disso, o espaço da Enoteca é muito bonito e acolhedor. Predominam as garrafas de vinho, naturalmente, uma vez que este é o seu habitat natural.


Enoteca da Cartuxa


Enoteca da Cartuxa


Enoteca da Cartuxa

Se na tua mira de viajante estiver a cidade de Évora, e apreciares boa comida e um bom vinho, inclui no roteiro a Adega da Cartuxa e a Enoteca. O Templo de Diana é o ex-líbris da cidade. Dito assim, parece que Évora é a cidade da deusa romana da caça (embora se acredite que a associação do templo à deusa tenha tido origem numa lenda). Mas depois deste fim de semana em Ebora Liberalitas Julia parece-me que Dionísio é que é dono de senhor destas terras... não fosse ele o deus do vinho na mitologia grega.




Enoteca da Cartuxa

Rosarinho

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