Hoje vamos descobrir... by Marisa Sousa

Fundação Champalimaud

Uma das coisas que sempre gostei de fazer foi mostrar e contar a nossa história a turistas que encontro no restaurante no meu pai (e com os quais meto conversa) e sugerir a amigos o que fazer e o que não perder em Lisboa, e em Portugal.

Quando era miúda queria ser jornalista ou matemática de investigação (vai-se lá saber…). Até que um certo dia estava a ver uma minissérie com o Diogo Infante. Ele interpretava o papel de um guia intérprete (profissão que teve efetivamente quando vivia no Algarve) e, subitamente, dei por mim a pensar e a ouvir uma voz: é isto!!! 

Então, lá fui eu para Turismo, mas dei por mim no meio do curso a pensar… "não, não é isto… Vou mas é para operações turísticas". E se assim pensei, assim o fiz. Este tem sido o meu percurso há 20 anos. Não sou guia intérprete, mas sou uma curiosa nata, orgulhosamente portuguesa, que gosta de trilhar os caminhos de Lisboa e de Portugal, mesmo aqueles que não estão nos percursos lógicos dos guias. 

Mas a comunicação e, de certa forma, a investigação sempre estiveram comigo, pois o bichinho de querer saber mais sobre a nossa história, sobre o nosso país, o olhar para um monumento e para uma rua com um sentido de descoberta têm sido uma constante na minha vida. Aqui, no blog, e com esta nova rubrica, vou ter essa oportunidade! 

É curioso que, há pouco menos de um ano, o meu pai disse-me "tiraste mesmo o curso certo"! Estávamos numa fila para o Castelo de S. Jorge e eu meti logo conversa com dois americanos. Quis saber como nos descobriram, o que já tinham visto, o que gostariam de ver e, claro, dei-lhes sugestões. 

E é isto que pretendo com a minha rubrica  "Hoje vamos descobrir… dar-te a conhecer curiosidades e pequenos/grandes tesouros de Lisboa, arredores e, claro, de Portugal. A ideia é ver o que é nosso com outros olhos, contando curiosidades e explorando locais escondidos, desconhecidos ou até esquecidos. Por vezes, valorizamos mais o que está lá fora, desconhecendo ou ignorando o que temos. Eu pretendo mudar isso.

"Hoje vamos descobrir…" Lisboa e outros locais de Portugal, com olhos de turista, sim (porque nós portugueses também podemos ser turistas na nossa própria cidade e país), mas com um sentido mais profundo. E não posso começar sem dizer-te que o escrevo com o maior prazer! 


Belém

Levei uma das miúdas do Armazém comigo neste primeiro passeio e agora levo-te a ti! Vamos começar por um dos bairros mais conhecidos de todos nós, seja porque já o visitámos (várias vezes), porque adoramos a sua maravilhosa doçaria, porque tem um relevo grande na nossa história ou pelos seus monumentos majestosos e inigualáveis. 

Estou a falar-te de Belém – vamos fazer uma pequena/grande visita a este local tão grandioso, que lembra o melhor e o pior da nossa história. E agora podes pensar: "Mas isso não é novidade, eu conheço a Torre de Belém!" E agora pergunto – "Conheces mesmo?" Até eu acho que há sempre algo de novo para descobrir em todos os lugares.

1.ª Paragem – Fundação Champalimaud

Este é um legado deixado por António de Sommer Champalimaud para o bem da saúde do ser humano, mas pode também ser um pequeno refúgio para um passeio à beira Tejo. Um dos locais mais recentes da zona de Belém que, para muitos, é apenas um edifício onde cuidamos e cuidam da nossa saúde. Um excelente centro clínico e de investigação biomédica. Não me alongarei muito na história por detrás desta fundação, até porque, aqui, podes perceber melhor o porquê e como Champalimaud quis contribuir para um futuro melhor. Aqui, podes admirar a magnitude, a beleza paisagística e arquitetónica que segundo o seu arquiteto, Charles Correa "funde a verdadeira essência e cultura deste local".

Fundação Champalimaud

Entremos pelos seus jardins públicos exteriores (Jardins Anna Sommer, nome dado em honra de sua mãe) e exploremos até ao rio. Vais encontrar um local calmo, relaxante, com uma vista privilegiada para o Tejo, onde te podes refugiar no seu anfiteatro a ler um livro, a admirar a vista ou a observar a obra de Júlio Pomar, um retrato de Champalimaud, com vista para o rio. 

Ao teu lado tens, sempre, a magnífica construção da Fundação, de onde surgem folhas de árvores tropicais de um jardim interior. Caso a Fundação o permita (admissão condicionada), podes visitar e até tomar um café dentro do edifício com vista para este jardim idílico.

Fundação Champalimaud

Fundação Champalimaud

Por falar em tomar um café, podes fazê-lo, também, na relaxante esplanada aberta ao público, olhando o rio tranquilo. Podes, ainda, jantar ou almoçar no restaurante Darwin’s, que só pela decoração vale a pena entrar. Sentes em cada peça decorativa e em cada parede a obra de Darwin espelhada na linda decoração. Se é para todos os bolsos? Pode ser. Nem que seja para um dia especial.

Este é um local maravilhoso. Desconhecido por muitos. Ali podes apreciar a vista, passear a dois ou em família, podes encontrar um refúgio, ou simplesmente olhar o Tejo de um outro ponto de vista.

Darwin's, Belém

Darwin's, Belém


2.ª Paragem – Monumento aos Combatentes do Ultramar

Da Fundação Champalimaud partimos, a pé, para a Torre de Belém e pelo caminho encontramos o Monumento aos Combatentes do Ultramar, no Forte do Bom Sucesso. Uma homenagem a todos os que morreram por Portugal. Um monumento controverso na altura da sua construção. Quando passas por ele e o 'olhas com olhos de ver', ele toca-te o coração. As paredes do forte estão revestidas com os nomes dos combatentes portugueses mortos em guerra. Um militar guarda a 'Chama da Pátria' para que não se apague a continuidade de Portugal. Durante muito tempo passava o viaduto e olhava para este momento e não lhe ligava, apesar de saber o que era. Mas quando pela primeira vez passei por ele a pé e dediquei um pouco da minha atenção, compreendi o seu significado.

Monumento do Combatente

Monumento do Combatente

Monumento do Combatente

3.ª Paragem – Curiosidades da Torre de Belém

Um pouco mais à frente e já estamos nos jardins da Torre de Belém. Um local maravilhoso para um piquenique ou para uma aula de thai-chi, aos domingos de manhã. Prepara-te, vais encontrar muitos turistas! Dinâmica bem diferente dos outros pontos por onde já passámos.

Torre de Belém

Quando lá chegares imagina esta torre em pleno Tejo, rodeada de água. Sabes que, desde os Jerónimos até à Torre de Belém, tudo era água. Até existia um pequeno forte. Mais tarde, D. Manuel I pediu para construir a torre, por um lado para proteger o rio, mas por outro para exibir o esplendor do seu reinado. Esta torre tinha como objetivo defender a orla costeira, mas só uma vez foi de facto usada para tal  na guerra contra os Filipes  e, nessa altura, também serviu como masmorra. Sem dúvida, que é uma torre de ostentação do reinado de D. Manuel I, com o seu estilo neogótico e o estilo único português  o manuelino – que transmite a imponência do rei D. Manuel I e dos Descobrimentos: a esfera armilar, a cruz de Cristo, os elementos naturalistas (como a representação de plantas), os animais e as cordas, que nos remetem para o mar. E por falar em animais, quando estiveres a admirar a torre, tenta encontrá-los esculpidos na pedra. E vê se descobres um em particular. Um rinoceronte. Mas um só. Ele é especial. E conto-te porquê.

Afonso de Albuquerque trouxe uma oferenda do sultão da Índia. Um rinoceronte, animal que ninguém (ou muito poucos) na Europa tinham visto. E, para que se provasse que este animal era forte, foi criada uma luta entre ele e um elefante. Adivinha lá quem ganhou? Digamos que o elefante ficou um pouco mal… Para mostrar a monumentalidade do império Português, D. Manuel I quis oferecer o rinoceronte ao Papa Leão X e a sua viagem ocorreu via marítima. O nosso rei fazia questão de o mostrar ao rei de França. Porém, o navio naufragou e o rinoceronte não sobreviveu. Contudo, trouxeram-no de volta a Portugal e embalsamaram-no. Depois seguiu, via terrestre, para o seu destinatário, o Papa Leão X.

Torre de Belém

Quando visitares a Torre de Belém tem uma especial atenção à Sala dos Reis. A sala foi feita para que, caso se falasse baixinho num dos cantos, tudo se ouvisse do lado oposto (isto dava jeito em muitos edifícios hoje em dia, também). Na Sala dos Reis "não há cá segredos".

Torre de Belém

E agora vou contar-te um segredo. No próximo "Hoje vamos descobrir…" vou-te levar à Tailândia, sem saíres de Belém, ao Beco do Chão Salgado e vamos ter um reencontro muito especial…

Até à próxima visita!

Marisa Sousa

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