Uma 'viagem' ao passado – Parte I


Na newsletter de abril, uma das miúdas deixou-se levar pelas páginas de um livro muito especial e fez uma 'viagem' ao passado. Mas como somos umas queriduchas, para ti que "te esqueceste" de subscrever este 'armazém de ideias' em primeira mão, hoje, levamos-te pela mão nesta viagem. Reza assim…

Diz o dicionário que 'nostalgia' é: "1 - sentimento de tristeza causado pelo afastamento do lar ou da terra natal; e 2 - sentimento de melancolia provocado pela lembrança de alegrias passadas". Já se pesquisarmos 'saudade', a primeira definição que surge é: "sentimento de mágoa e nostalgia, causado pela ausência, desaparecimento, distância ou privação de pessoas, épocas, lugares ou coisas a que se esteve afetiva e ditosamente ligado e que se desejaria voltar a ter presentes".

"Por que raio está a miúda para aqui a debitar definições do dicionário?" É simples. Após ler o romance "Searas ao vento", do nosso querido 'primo' Nuno Franco Pires e autor convidado do 1º Open Day do Armazém (remember?), que acabou por ser uma das sugestões do nosso Clube de Leitura - Livros à Sexta, e uma ótima 'desculpa' para uma viagem literária pelo Alentejo, fui invadida por um enorme sentimento de… será 'nostalgia' ou será 'saudade'?! Conferidas as ditas definições, nenhuma me pareceu adequada. Isto porque, às duas são associados sentimentos negativos de tristeza, melancolia ou mágoa… e não foi nada disto que senti! Muito pelo contrário!


Se leres "Searas ao vento" (que aconselho vivamente), certamente vais perceber o que quero dizer com 'nostalgia' ou 'saudade', mas da boa!!! Sem a negatividade que lhes é atribuída. Basicamente, despertou em mim uma vontade de olhar lá para trás e 'recordar' (mas recordação não é um sentimento, daí a minha dificuldade na escolha da palavra certa), e, principalmente, descobrir um pouco melhor as minhas origens. É que as minhas recordações só vão tão longe, quanto aos meus avós diz respeito… peço desculpa, e uma bisavó! Sim, isso mesmo! Ainda tive o privilégio de conhecer 'uma' das minhas bisavós maternas (eu já explico), a bisavó Jacinta

Ir lá atrás no tempo, ao profundo Alentejo, só mesmo pelas histórias e estórias tantas vezes ouvidas em convívios familiares, ou em fotografias que eternizaram momentos. E, por isso mesmo, a leitura do livro provocou em mim sentimentos de enorme familiaridade com expressões, hábitos e costumes, situações e até com os nomes de algumas personagens!!! Logo a começar, pelo marido da narradora (a Olga) que se chama Joaquim Manuel, o nome do meu pai, que resulta da junção dos nomes dos meus dois bisavôs paternos! (prática muito comum naquela altura) 

Bem, mas não é do livro que quero falar, e sim do que a sua leitura despertou em mim: uma enorme vontade de 'homenagear' os meus antepassados, de raízes humildes, os Figueira (de pai) e os Paixão, ou Eloi (da mãe). Só por curiosidade, ficas a saber que os meus pais, apesar de serem os dois alentejanos, vieram de cidades diferentes - Évora e Moura, portanto, Alto e Baixo Alentejo -, mas acabaram por 'assentar arraiais' na mesma zona, e só se conheceram por cá, já jovens adultos. A história, ou estória, deles pode ficar para uma outra altura, hoje, vamos viajar um pouquinho lá mais atrás, pela família materna! Portanto, vamos lá viajar até ao profundo Alentejo, até Évora!


Trisavó Jacinta com a trineta Sílvia (minha sobrinha) ❤❤❤

Bisavós maternos

A mãe da minha avó materna chamava-se Feliciana do Rosário e fiquei a saber agora que era modista de chapéus(!!!) e bordadeira! Uauu, uma bisavó modista de chapéus! Até consigo imaginar as esposas dos senhores lavradores de Évora, à porta da bisavó Feliciana, a pedirem-lhe para fazer uns modelitos 'iguais' aos da realeza britânica! Que chique! Já sobre o meu bisavô Joaquim António Ferreira, que, a determinada altura da vida, ficou viúvo (daí eu dizer que conheci 'uma' das minhas bisavós, que foi a sua segunda mulher), sei agora que nasceu em… estás preparada… 1896!!! século XIX!!! - eu sei que não é muito difícil que os nossos bisavós tenham nascido no século XIX, mas ver 1896 escrito é... Uau! - ... e foi abegão. E esta informação deu 'água pela barba'... ou não. Porque as minhas fontes (os meus pais) não se decidiam sobre o que raio faz um abegão. Confesso que foi a primeira vez que ouvi a palavra, mas tem a ver com o trabalho de campo, mais ligado à construção e manutenção de equipamentos agrícolas, do tipo arados puxados pelo gado. You get the picture, right? Mas, claro, trabalhava para os senhores lavradores da cidade.

Quis o destino que o meu bisavô Joaquim, depois de enviuvar, voltasse a encontrar o amor (e quem não gosta de uma bela história de amor?!) e, dessa forma, possibilitasse aos bisnetos, mesmo sem o saber, o privilégio de conhecerem e conviverem com uma bisavó. Esta foto (que adoro!) 👆 representa o contraste entre a mais antiga geração da família e a mais nova, a determinada altura da vida, onde a bisavó Jacinta (até hoje foi quem gozou de maior longevidade na família, viveu aos 99 anos!) está com a minha linda sobrinha Sílvia, sua trineta, ou trisneta, como preferires! Viajando um pouco mais atrás no tempo, sei hoje que a bisavó Jacinta também trabalhou como doméstica em casa de lavradores de Évora e chegou mesmo a ajudar na matança do porco na casa da família Pinto Basto! Sim, essa mesmo, a do conhecido fadista.

A bisavó Jacinta, aqui, mais jovem ❤

Já sobre os pais do meu avô materno é onde a informação mais escasseia.

A bisavó Leocádia Maria Paixão trabalhou como empregada doméstica. No entanto, existem também uns 'zunzunz' na família de que ajudava alguns senhores endinheirados a livrarem-se de 'certos constrangimentos' originados por relações extraconjugais, tendo inclusive sido presa por causa de uma situação que 'resolveu' menos bem. Porém, até esse momento, como deves calcular, este seu serviço compensava mais dos que as horas que fazia como empregada doméstica, o que fez com que a bisavó Leocádia fosse das primeiras pessoas da sua classe social a ter telefone em casa, na zona do Convento Novo! Até parece um filme!

Do bisavô João José Eloio descobri que era tratador de cavalos (gosto de imaginar que era uma espécie de Tom Booker, de "The Horse Whisperer"), ou seja, trabalhava igualmente para os grandes latifundiários da linda cidade alentejana onde assentam as minhas raízes.

A única foto que consegui da bisavó Leocádia

Avós maternos

Da minha querida avó Alzira do Anjo Ferreira já te falei aqui, a "avó do café". Só que a minha avó foi muito mais do que isso! Profissionalmente falando, tal como muitas das mulheres da família, a minha avó foi costureira enquanto viveu em Évora e, depois, já a morar em Rana, concelho de Cascais, trabalhou como empregada doméstica numa casa de família na Parede. E a avó Alzira, desde que me lembro e como já aqui contei, foi uma figura sempre muito presente no nosso crescimento (meu e da minha irmã). Além do café, do seu quintal aberto para as nossas 1001 brincadeiras, de dormirmos na sua casa ao fim de semana e todas as tropelias que possam imaginar, passava-nos (e tentava passar-nos) os seus ensinamentos… tadinha, bem me lembro das vezes que me sentava à máquina de costura com ela a tentar ensinar-me a usar a Singer! Nunca consegui atinar com aquilo… pontos tortos, linha a sair da agulha, máquina encravada… querida avó, não tens culpa, aqui a tua neta é que é desajeitada mesmo! Ah, e a avó Alzira era uma cozinheira de mão cheia! Quanta saudade da comidinha da avó, que reconfortava o estômago e a alma!!! Ah, e a fazer lembrar a 'cantilena' de "Searas ao vento", para "tirar o quebranto ao bebé", lembro-me da minha avó Alzira me ensinar a oração de proteção contra as trovoadas e tempestades, a "Oração a Santa Bárbara", sim, porque aqui a menina tinha medinho, ok.

A avó Alzira ❤ 

O avô Eloi

Por fim, o avô Joaquim Paixão Eloi (pois, o meu avô 'perdeu' o 'o' do pai, Eloio) trabalhou como correeiro em Évora e, mais tarde, quando veio para cá… coincidência das coincidências… foi operário fabril na S.I.P.E., em Carcavelos, como o meu avô paterno, o avô Zé (que te vou apresentar na parte II desta 'viagem')! Mas já viste, os meus dois avôs, vindos do Alentejo, de cidades diferentes, vieram morar para a mesma zona e acabaram a trabalhar juntos! E, tal como o avô Zé, o avô Eloi, como o tratávamos (os netos), também era muito amigo de passar pela taberna no caminho para casa, depois do trabalho, deixando a avó Alzira muitas vezes de 'cabelos em pé'. No entanto, nos almoços ou festas de família era uma animação, sempre a cantar, ou a colocar adivinhas aos netos… é das memórias que mais guardo do meu avô Eloi!

Os meus dois avôs, já na 'cidade grande', a divertirem-se com amigos. O avô Zé é o que está de pé a tocar harmónica e o avô Eloi é o da camisa aos quadrados (já a criar tendências... hahaha)

❤❤❤❤❤

Termino esta 'viagem' às minhas raízes alentejanas com a certeza de que muito mais haverá para descobrir e contar. Mas assim até deixo no ar uma certa expetativa sobre o que mais poderá ter acontecido na família da qual tenho o privilégio de fazer parte!

E tu, até onde vão os teus conhecimentos sobre as tuas raízes, lá bem atrás no tempo?

Susana Figueira

Oração a Santa Bárbara

"Santa Bárbara bendita,
Que nos Céus estais escrita,
Com pena e água benta

Livrai-nos desta tormenta."
E a minha avó Alzira acrescentava:
"Que nos céus estais escrita,
Na terra assinalada
Que todos os anjos do céu 
Protejam as nossas almas."

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