Viagem literária a Elvas - MACE

Museu de Arte Contemporânea de Elvas


Sabemos que por aqui temos estado muito viradas para Elvas. É normal porque o fim de semana literário que por lá vivemos foi mais doce que uma sericaia! E o que vimos por entre as 'searas ao vento' dá quase um romance. Mas eu prometo que para semana esta cidade alentejana vai dar lugar a uma cidade europeia (Londres). Portanto aproveitem porque este é o último post sobre as aventuras de um Clube de Leitura por terras classificadas como Património da Humanidade. E deixámos para o fim o Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE). Quisemos terminar este capítulo com arte ;)




Museu de Arte Contemporânea de Elvas

O MACE foi inaugurado no ano de 2007 e de antigo Hospital da Misericórdia de  Elvas passou a depósito da Coleção António Cachola (CAC). Um 'santuário' de 800 obras nacionais de mais de uma centena de artistas do nosso Portugal, que "pretende proporcionar uma visão global das realidades históricas e criticamente produtivas definidas entre trabalhos de artistas revelados ou firmados nos anos 80 do século passado e a atualidade". Na verdade, esta é uma coleção em constante crescimento.

O MACE não fazia parte do roteiro literário baseado no livro "Searas ao Vento" do nosso 'primo' Nuno Franco Pires, mas durante o almoço no "Acontece" o Ricardo (a nossa mais recente aquisição dos Livros à Sexta) sugeriu esta visita e o Nuno, como grande embaixador da sua cidade, disse que era uma ótima opção para a tarde de sábado. 


Museu de Arte Contemporânea de Elvas

No edifício de construção tardo-barroca de meados do século XVIII aguardava-nos a exposição A Guerra como Modo de Ver e a Soraia Branco a nossa guia. Apesar de o MACE não estar traçado no nosso itinerário literário, também as "Searas ao Vento" falavam-nos de guerra. Parece que os astros estavam alinhados.

"Os meus irmãos tinham por hábito subir ao castelo e de lá avistavam os aviões e a queda das bombas. Confesso que nunca tive curiosidade de assistir a esse horror. Procurávamos fazer a vida dentro da normalidade mas afligia-me saber que morriam inocentes (segundo diziam, às centenas) e que de um momento para o outro também podíamos estar em risco."


Museu de Arte Contemporânea de Elvas


A Guerra como Modo de Ver reúne um conjunto de obras de 32 artistas da Coleção António Cachola, que mostra "a guerra para lá da guerra e os modos de ver para lá da visão, articulando, sem nenhuma pretensão cronológica ou sucessão narrativa, obras de arte que permitem refletir sobre as várias predisposições do conflito do campo sensorial aos tropos de guerra". Podia ter sido uma exposição difícil de entender, podia não ter tido capacidade de reflexão se todo o meu tempo fosse dedicado a compreender o sentido dado pelo artista ao seu trabalho. Eu tenho este problema com arte contemporânea (e não tenho vergonha de o assumir). Mas o enquadramento dado pela nossa guia, a simpática e entendida Soraia Branco, permitiu que eu olhasse a obra, a entendesse e assim a reflexão aconteceu e o murro no estômago também. Mostra-se uma guerra para além da guerra como a conhecemos nua e crua. Mostra-se a guerra que se calhar em alguma altura da vida tu e eu já travámos. Mostra-se a guerra que atualmente muita gente enfrenta no sua dia a dia. Daí o murro nos estômago. Porque não é aquela guerra distante, que acontece num país que fica do outro lado do mundo. É a ameaça constante do terrorismo que paira nas nossas cabeças, é a violência de género, é a crise dos refugiados, é a morte do nosso planeta, é a homofobia... as guerras contemporâneas.


Museu de Arte Contemporânea de Elva


Museu de Arte Contemporânea de Elvas

Estas obras permitem a reflexão do artista e a nossa. Olhas, sentes, compreendes, arrepias-te, emocionas-te (Obrigada Soraia! Mesmo!). A experiência não teria sido tão intensa sem o acompanhamento de uma pessoa que está por dentro. Teria sido diferente, certamente. Talvez sem aquele sentimento que me abraçou do princípio ao fim - tudo fez sentido. E apesar de a explicação da guia me ter ajudado a ver esta guerra, ela não deixa de ser subjetiva, como uma obra obra de arte deve ser. Porque eu senti-a de uma forma mas tenho a certeza que, a Susana, a Beladina, o Carlos,  a Catarina, o Ricardo, a Rosa, o J. e o Nuno viveram as suas experiências, viram as suas guerras, porque todos somos diferentes. E essa é a nossa grande riqueza... mas também as causa de tantas guerras.


Museu de Arte Contemporânea de Elvas

A exposição estará patente até dia 31 de dezembro de 2019. As visitas guiadas são gratuitas mas tens de marcar previamente. Se fores para os lados desta cidade raiana não percas oportunidade de enfrentares as tuas guerras.

"O que sei eu? Estou para aqui a pensar todas estas coisas, logo eu que nunca saí de Elvas: sei lá eu o que é a guerra ou que se sofre por lá."

Museu de Arte Contemporâneo de Elvas

Rosarinho

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