A arte de orientar as palavras para um voo final

Workshop de Escrita Criativa no Museu do Oriente

Escrever, abandonar. Isto já me aconteceu tantas vezes. Escrever, riscar. A quantidade de canetas que já passaram pela minha secretária e ficaram sem tinta. Escrever e misturar texto. Foi exatamente o que fiz com o título deste post - A arte de orientar as palavras para um voo final.


Escrever é um exercício muito exigente. Edgar Allan Poe tinha razão quando falava da filosofia da composição. A escrita faz-se com 90% de transpiração e 10% de inspiração. Mas é algo que amo desde que comecei a entender a importância e o poder das palavras. É algo que me traz uma realização profunda e tudo começou quando descobri o prazer da leitura. Ler! Ler! Ler!

A Laura Mateus Fonseca (Então, queres ser escritor?) uma pessoa extraordinária e que admiro muito, convidou-me para fazer um workshop de escrita criativa no Museu do Oriente (Palavras Orientadas|Histórias Contadas). Estou-lhe imensamente grata. Acho que ela não tem a noção de como aquele dia foi importante para mim. Já te falei da Laura, aqui no blog. Gosto muito dela pela pessoa especial que é e pela sua capacidade de transmitir os seus conhecimentos (que são muitos). Editora, formadora, gestora de projetos editoriais, doutoranda e investigadora do IELT-FCSH-Nova esta mulher é uma força tremenda, uma inspiração!

Workshop de Escrita Criativa no Museu do Oriente


Neste workshop aprendi o mundo!

Sabias que a escrita criativa é algo que remonta a 1816? Não é nenhuma modernice. Por essa altura Lord Byron, Mary Wollstonecraft Shelley, Dr. Polidori, e Percy Shelley juntavam-se aos serões, em Génova, e desafiavam-se a redigirem histórias fantásticas (o bom de não existir nem televisão nem redes sociais). Aliás foi numa destas noites criativas que nasceram narrativas como "Frankenstein" e "Prometeu Moderno."

No Museu do Oriente e com a arte de orientar da Laura aprendi a criar uma narrativa. Explicar-te como tudo acontece não é o que pretendo com este post. Se quiseres muito saber e aprender aconselho-te a arriscares um workshop como este. O que te quero dizer é que descobri uma outra forma de escrever, um outro registo e é isso que te quero mostrar.

Durante uma visita guiada ao Museu, pela simpática Margarida, tomámos notas, sentimos o espaço (cores, cheiros, luz, objetos, personagens, lendas...) e no regresso à sala Macau produzimos, em pouco tempo, um miniconto.

Quem disser o contrário é porque tem razão, de Mário de Carvalho

Por amor à língua, Manuel Monteiro

Workshop de Escrita Criativa, Museu do Oriente

Museu do Oriente

Workshop de Escrita Criativa, Museu do Oriente

E este foi o meu voo final depois de um dia de aprendizagens:

A Fuga

Fugiu à pressa com medo.
Levou consigo o contador e o Menino Jesus Bom Pastor. Atravessou a porta sem olhar para trás.  Os pés molharam-se nas águas lamacentas. Mas isso não era importante porque a sua alma mantinha-se pura. Queria apanhar o primeiro barco para a Margem Sul. Talvez lá pudesse fazer um negócio da China e tornar-se importante. A camisa de seda já suada da correria fora oferta de Dan. Lembrança de dias felizes. 

Fugiu à pressa com medo, enquanto Dan partia a loiça toda. Mas que culpa tinha ele de o bacalhau saber a laranja ou de a laranja saber a bacalhau? Sejamos criativos!!  Já no barco a deusa do Sol aqueceu-lhe as entranhas. Lembrou-se que no bolso das calças tinha um leque que trouxera, subtilmente, do gabinete de curiosidades de Dan. Sentado à sua frente um samurai olhava-o fixamente segurando a sua catana. Parecia uma personagem saída de um qualquer biombo de museu. 

Subitamente o barco parou. Tudo ficou escuro. Uma mão amiga tocou-lhe duas vezes no ombro. Abriu os olhos.
- Peço desculpa, mas o Museu vai encerrar dentro de 5 minutos - disse-lhe Margarida.
Levantou-se e fugiu à pressa com vergonha.

Museu do Oriente - A Ópera Chinesa

Rosarinho

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