Uma lufada de romantismo, by Filipe Correia


Hoje, deixei a poesia a repousar e escrevo, pela primeira vez, na minha hipotética vida de escritor com a razão. Ou será antes, vivo pela primeira vez na minha hipotética vida? Durante toda a vida esqueci-me de apagar a lareira interior e o monóxido de carbono foi-me envenenando, andei feito um vagabundo dos sentidos, tantas vezes me apaixonei só com a ideia de ficar apaixonado. Sentir demais ou perder o autocontrolo são das piores autopunições que nos podemos infligir. O meu masoquismo terminou.. Pensei que sabia o que era o amor e nunca soube. Conheci-te, perdi-me mais um pouco, esbanjei intensidade como habitual, resisti à mudança e só quando te perdi percebi o que é amar...

Hoje eu sei que quem ama deixa a outra pessoa livre (como eu te deixei) e nessa liberdade reside tudo o que prende algo a alguém. Aprendi que posso passar dias sem te ver ou falar contigo, que isso não muda nada. Está tão errado o ditado "olhos não vêm, coração não sente", tal e qual eu andei errado todos estes anos... O egoísmo do toque, do cheiro, a embriaguez do carinho, a loucura viciante do sexo, tolda-nos o raciocínio. Amor é dar, sem nada pedir em troca, por isso eu continuo a dar.

Desde que não te vejo, aprendi que sentir-te bem à distância, é melhor que sentir-te menos feliz de perto. Desde que não te toco, aprendi que esperar também é belo. Ontem vi-te e a tua luz inundou-me, fez-se noite e dia no mesmo segundo, fez-se terramoto e calmaria no mesmo local. Ontem voltei a tocar-te e nunca um abraço teu me soube tão bem, nunca o teu arrepiar me encantou e disse tanto... Hoje eu sei que as palavras, os sentimentos e beijos não se pedem, são muito mais majestosos quando se recebem de forma inesperada. Ontem os teus conselhos já não me soaram a agressão (como erradamente sempre me pareceram), hoje eu vejo como podes demonstrar com mil e um gestos o carinho que tens por mim (sem uma palavra), hoje eu soube que um beijo teu inesperado é muito mais quente, do que os beijos que te pedi por obrigação. 

Amar é mais respirar do que suspirar, é mais fechar os olhos do que pestanejar, é mais sorrir no silêncio do que gritar na emoção. Sabes, eu dantes chorava desiludido, chorava tanto quando sentia o meu coração em cacos, que sentia cascatas em mim. Hoje eu aprendi a contemplar os meus calmos lagos. Hoje eu não choro, antes sorrio porque me cruzei contigo na vida, hoje eu sei como se enxerta de coração o nosso próprio coração e ainda guardo umas lágrimas de felicidade por dar no futuro. Hoje eu sei como sustenho o meu sangue e os meus soluços.

Obrigado por tudo o que me ensinaste meu amor, ser-te-ei eternamente grato. Hoje eu sei que a esperança de um dia eu conseguir ocupar o lugar mais lindo em ti não requer pressa. Tenho livros por ler, tenho vidas por viver, tenho tantas páginas em branco por escrever, tenho as janelas abertas e guardei entre o parapeito e os meus braços a lembrança dos teus olhos sorrindo para mim, mesmo que venha um vendaval...

PS- Ontem colhi flores para te dar, antes de me abeirar de ti olhei para elas, e estavam murchas demais para eu tas dar. E tu nem soubeste de nada. Automaticamente pensei que aquilo era a melhor metáfora possível, ocultar-te-ei tudo o que te murche ou não for vivo... Desde que te conheci, o mundo ficou um lugar melhor e sem despedidas. Outro dia voltarei a ver-te, outro dia voltarei a sentir-te, outro dia voltarei a escrever com poesia, hoje vivo, hoje a razão tomou conta de mim, como tu tomaste conta do meu coração.

Até já.

Filipe Correia

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